Eu acredito que passei toda uma existência fugindo de mim mesme e, ao mesmo tempo, me procurando.
Essa fome de alma — de me sentir complete, de me sentir inteire, pertencente, de sentir que um dia eu poderia ser capaz de encontrar paz interna — foi a grande bússola de todas as minhas buscas.
No fundo, eu pressentia que o que eu buscava também me buscava. E foi justamente dentro da linha do Tantra Śaiva Não Dual (TSND) que encontrei um enraizamento de paz em mim mesme. Algo aconteceu ali: minha alma parou de buscar fora e começou a se investigar dentro dela mesma, como quem lê uma poesia bonita, e sim foi ai que comecei a ver a beleza interna de forma clara e coesa.
E não, eu não sou uma pessoa com a vida fácil, resolvida, não me acho um case de sucesso. Sou uma pessoa como você, tenho poli-traumas, entre estupro, abuso fisico e psicologica nessa conta com uma hipersensibildade e uma mediunidade fora da curva e uma vida complexa. Sinto que passei grande parte da minha vida escutando a voz interna do meu “crítico interior”, em muito sofrimento e dor, interna e externamente. E foi justamente ao mergulhar pra dentro de mim mesme que começou a se abrir um espaço de paz e bem-aventurança internamente. Algo que eu realmente não acreditava ser possível: ver toda essa beleza dentro de mim mesme.
O Tantra Śaiva Não Dual possui muitas linhas, escolas e visões. É uma filosofia extremamente ampla. Neste primeiro texto do blog, quero trazer a lente para a linha do auto-reconhecimento, pois sinto que ela pode ser um dos maiores suportes para o encontro dessa paz e bem-aventurança interna.
Se autoreconhecer é reconhecer em nós mesmos aquilo que tanto esperamos, é ver dentro de nós o divino. No meu curso De Volta pra Si, eu proponho uma ideia radical que devemos casar com nós mesmes, ser para nós mesmes aquilo que tanto esperamos de alguém. E, para que isso aconteça, precisamos ser sinceres. Na maior parte do tempo, não temos vontade alguma de casar com nós mesmes, pois não nos achamos dignes nem merecedores. Nem dignes de amor — quanto mais de amor próprio. Eu reconheço em mim, e em todes meus alunes e pacientes, um processo profundo de auto-ódio.
Essa visão filosófica do auto-reconhecimento é, para mim, o caminho mais assertivo, mais amoroso e mais bonito para transformar isso. Pois, em essência, se auto-reconhecer é reconhecer o divino em nós. É ser capaz de ver a divindade, a força criadora que habita em tudo o que existe, também dentro de nós mesmes.
Se você parar para estudar filosofia, vai perceber que, não importa a era ou a civilização, a pergunta — afinal, quem sou eu? — sempre aparece de forma concreta. Desde a inscrição “conhece-te a ti mesmo”, no Templo de Apolo, em Delfos, máxima retomada e aprofundada por Sócrates como fundamento do caminho filosófico — não como acúmulo de saber, mas como investigação viva do ser —, até meu amado mestre e guru Sri Ramana Maharshi, com sua auto-inquirição “Quem sou eu?”, vemos a importância desse movimento de olhar para dentro.
Na tradição tântrica, não seria diferente. Existe toda uma linhagem de autoras e autores fundamentais que se debruçam sobre esse tema. Neste primeiro texto do blog, quero começar me aproximando do texto Pratyabhijñāhṛdayam — “O Coração do Auto-reconhecimento” — de Kshemaraja, discípulo direto de Abhinavagupta. Ambos são autores fundamentais, absurdamente importantes para a visão do Tantra Śaiva Não Dual.
Qual a importância desse texto? Ele é um escrito acessível e sintético, que apresenta a essência dessa visão filosófica. Inspirado no Īśvarapratyabhijñā-kārikā, de Utpaladeva (século X), o texto condensa, em apenas vinte sutras, os ensinamentos centrais do tantra: a não dualidade vista a partir do divino em nós, e o convite a perceber a divindade não apenas fora, mas também dentroEssa visão do auto-reconhecimento nasce diretamente da obra Īśvarapratyabhijñā Kārikā, de Utpaladeva, um dos grandes nomes do tantra não dual da Caxemira.
O ensinamento pode parecer simples, mas é profundamente transformador: a libertação acontece quando reconhecemos que somos a própria consciência divina, Śiva, e não algo separado dela. Para essa linhagem, Śiva (Shiva) é o Deus Supremo, a grande unidade, também chamado de Consciência ou Verdade. Em meus canais, eu o chamo carinhosamente de AMOR — em maiúsculas,
porque não falo aqui de amor romântico ou de um sentimento banal, mas daquilo que conecta todas as coisas. Aquilo que é tudo o que existe, impossível de ser plenamente colocado em palavras, mas possível de ser sentido no coração, no corpo e as vezes na mente por em estados de meditação, em experiências com plantas de poder, entre outros.
Utpaladeva, poeta e filósofo do século X, desenvolveu a escola Pratyabhijñā, iniciada por seu mestre Somānanda, e influenciou profundamente Abhinavagupta — sendo este último um dos principais autores da linhagem do Tantra Śaiva Não Dual.
Uma frase atravessa toda essa tradição e resume o coração do ensinamento:
O reconhecimento não é criação ou surgimento.
A libertação não é produzir um novo estado, mas reconhecer (pratyabhijñā) a própria natureza como Śiva, Consciência absoluta.
No texto Pratyabhijñāhṛdayam — “O Coração do Auto-reconhecimento” —, Kshemaraja apresenta essa ideia central de forma clara. Ela também pode ser resumida por um ensinamento profundo de Sri Ramana Maharshi: não existe diferença entre eu (ātma), o guru e o Self — entendido como Universo, Ser, Divino, Consciência, Verdade.
Talvez você já esteja se perguntando: então, por que me sinto separade? Por que me percebo dividide, fragmentade, cansada e em sofrimento?
Kshemaraja responde a isso sutra por sutra. Ele mostra não apenas como e por que essa sensação de separação surge, mas também oferece chaves para se abrir ao reconhecimento de que tudo é uma unidade — de que não existe um objeto separado e um eu que percebe.
Falar sobre isso por meio das palavras é sempre um desafio. A realização dessa verdade — SatCitĀnanda (सच्चिदानन्द), expressão da tradição filosófica indiana, presente no Vedānta e também no Tantra, que significa Ser (Sat), Consciência (Cit) e Bem-aventurança (Ānanda) como uma única realidade indivisível — não acontece apenas pelo discurso. A linguagem, por sua própria natureza, é dual. Ainda assim, essa verdade pode ser percebida pelo coração e experimentada através do corpo-mente.
Por isso, esse ensinamento funciona como um dedo que aponta para a lua, ou como uma seta que indica um caminho. Ele precisa ser sentido no coração e vivido no corpo.
Nessa filosofia, não existe separação entre um mundo espiritual transcendente e a experiência encarnada. Não há promessa de um céu distante nem ameaça de um inferno futuro. Não existem opostos em conflito, mas apenas existência, consciência e ser.
Este texto fundamental da linhagem será apresentado neste blog, sutra por sutra, com os apontamentos de meu principal professor, Christopher Wallis (Hareesh), e com complementos do curso do professor João Paulo Gonçalves, do Ashram Urbano, dedicado ao estudo do mesmo texto, sempre através da minha lente — latina, queer e decolonial.
Trarei aqui cada um dos vinte sutras como um convite ao desfrute e ao reconhecimento dessa verdade poética — uma verdade que não pode ser apenas dita, mas sentida.
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