E se essa sua fome de alma não fosse realizada por algo fora, mas por algo dentro?
Sabe, eu sempre busquei me sentir complete, inteire. Por muito tempo eu acreditei que esse lugar, esse planeta, era uma prisão — até ser capaz de realizar o que esse sūtra diz em todas as minhas células.
Dizem que quando estamos buscando a verdade, a liberdade e a essência da nossa alma, é como um frio interno que nunca esquenta. Em muitas tradições, encontramos “cobertores” que aliviam esse frio por um tempo.
Mas a compreensão verdadeira do que esse sūtra quer dizer é outra coisa: é acender uma chama dentro de nós — e, então, esse frio simplesmente deixa de existir.
Como nas metáforas de Jesus: beber de uma fonte que faz cessar a sede (evangelho de João).
Talvez exista um ponto em que todos os caminhos espirituais se encontram. Um lugar anterior às práticas, onde o que resta é apenas a experiência direta de existir. É desse lugar que parte o primeiro sūtra do Pratyabhijñāhṛdayam — o texto do reconhecimento (auto reconhecimento) — de Kṣemarāja.
Essa é talvez a joia mais profunda de onde os místicos apontam que todas as vertentes espirituais vêm da mesma sabedoria. O texto de Kṣemarāja não seria diferente: como em muitos textos do tantra e na marca de grandes mestres, começamos com a verdade mais pura e mais importante. Pois, se você compreender com seu corpo, mente e experiência esse sūtra, não precisa do restante do texto. Todo o texto é um desdobramento desse sūtra.
Vamos a ele?
No sūtra I:
citiḥ svatantrā viśva-siddhi-hetuḥ
Na tradução de Hareesh: “A Consciência, livre e autônoma, é a causa da realização de tudo no universo.”
E na tradução do professor João C. B. Gonçalves: “A Consciência autônoma é a causa da realização do universo.”
Quais as implicações disso no nosso cotidiano e na nossa vida?
Podemos pensar da seguinte forma: esse sūtra nos afirma que tudo é Consciência.
Aqui, Consciência está simbolizando algo que é impossível de colocar em palavras: a tessitura da vida, aquilo que cria e faz tudo — que em alguns lugares você encontra como Consciência, Verdade ou até Deus, mas nas minhas páginas eu gosto de usar a palavra Amor.
Dizer que tudo é Amor não é algo simplista ou inocente. É afirmar que aquilo que existe — a própria existência — é Amor. E tudo é Amor.
Vamos imaginar um mundo onde percebemos tudo como Amor?
Se tudo é Amor, não há motivos para competir, lutar, guerrear, escravizar, mentir ou ser rude. Se tudo é Amor, devemos nos mover em compaixão, que é o Amor em ação. Devemos agir com essa sabedoria — e agir sem ela é ignorar essa verdade de que tudo é, em si, Amor, Verdade e Consciência.
Desse ponto de vista, é fácil compreender que o Amor é a base real de toda revolução. Que revolucionar é ver tudo e todes como uma só unidade. Se minha mão está queimando ou precisando de ajuda, eu não perco tempo em negar — eu ajo. Quando isso se amplia, eu não causo dor ao outro.
E se tudo é Amor, e eu sou isso, então eu sou livre e autônome para realizar tudo.
Aqui, a palavra svatantra aponta exatamente para isso: uma liberdade essencial que já é. A Consciência — e você como ela — nunca esteve presa. Não se trata de conquistar liberdade, mas de realizar a liberdade que já se é.
Essa é a verdade mais pura que nos conta esse sūtra.
Isso quer dizer: a Consciência, sendo autônoma, é a causa da manifestação do universo — mas não no sentido de um criador separado criando algo externo.
A Consciência não cria o mundo como um oleiro faz um vaso. Ela é a própria argila.
Ou seja: tudo o que existe é feito da mesma substância que percebe.
Uma das grandes rupturas dessa visão é sair da ideia de que existe algo “mais espiritual” e algo “menos espiritual”. No tantra não dual, isso simplesmente não se sustenta.
Pensamentos, emoções, corpo, prazer, dor, relações — tudo isso é a própria Consciência se manifestando em diferentes graus de densidade.
Os 36 tattvas (os princípios da realidade) são justamente um mapa desse desdobramento: do mais sutil ao mais concreto. Não como algo separado, mas como camadas da mesma realidade.
No início desse mapa estão aquilo que chamamos de Śiva e Śakti — que não são dois.
São a mesma Consciência em dois aspectos: presença e movimento, silêncio e expressão, potência e manifestação.
A partir daí, a experiência vai se tornando mais densa, até chegar naquilo que chamamos de “eu separado” e “mundo externo”.
A Consciência, que é tudo o que existe, se veste e se transveste pelo poder magnífico da criação.
Nessa perspectiva, Māyā não é ilusão no sentido de algo falso. Māyā — a tessitura da separação — é o poder de se velar para se auto descobrir, para se perceber e se revelar.
É o que permite que a Consciência se experimente como múltipla — como se houvesse separação entre “eu” e “outro”, “sujeito” e “objeto”.
E é aqui que nasce a experiência humana comum: a sensação de estar separade, condicionade, movide por padrões.
A gente passa a viver de forma heterônoma — atravessade por cultura, linguagem, traumas, repetições.
Não pensamos: somos pensades.
Não escolhemos: somos movides por tendências.
Essas tendências são chamadas de saṁskāras (impressões psíquicas), que formam vāsanās (padrões repetitivos), sustentando o ciclo — o samsāra.
Aqui entra um ponto essencial:
no tantra, libertação não é melhorar o ego, nem alcançar um estado especial.
É reconhecer o que já está aqui.
A Consciência nunca deixou de ser livre. O que existe é um esquecimento dessa natureza.
Por isso, o caminho não é adquirir algo novo — é lembrar.
Lembrar que você não está dentro da vida.
A vida está acontecendo dentro da Consciência que você é.
Entre muitas práticas, existe uma das mais simples — e mais profundas: observar.
Mas não no sentido mental.
É olhar para algo — uma pessoa, um som, o próprio corpo — e, ao invés de focar no objeto, relaxar no ato de perceber.
Quando isso acontece de verdade, algo muda.
A divisão entre quem percebe e o que é percebido começa a enfraquecer — e, por um instante, pode até desaparecer.
O que sobra não é um “eu observando melhor”.
É só presença.
Sem centro fixo.
Sem separação.
A mente não alcança isso.
Pensamento nunca toca a origem. Por isso, esse caminho não é sobre entender mais — é sobre relaxar a tentativa de controle.
A contemplação aqui não é esforço.
É um tipo de entrega lúcida.
Tudo pode ser portal.
Talvez um dos pontos mais bonitos dessa visão seja esse: qualquer experiência pode ser caminho.
Não existe um estado ideal necessário.
Respiração, prazer, dor, confusão, encontro, toque — tudo pode revelar a mesma coisa: o Amor se reconhecendo.
E isso não fica só no campo interno.
Muda a forma de estar no mundo.
Se tudo é expressão da mesma Consciência, o outro não é realmente “outro”.
Então a prática vira também uma postura: olhar o mundo como se fosse Deus olhando.
No fim, não tem fora.
Esse ensinamento leva a uma inversão radical: não existe um mundo “lá fora” independente da Consciência.
Tudo o que aparece, aparece dentro dela — e como ela.
Isso não é uma ideia para acreditar.
É algo que pode ser investigado diretamente.
E, aos poucos, percebido.
Talvez, no fim, o caminho não seja acumular experiências espirituais nem buscar estados elevados.
Mas reconhecer, com cada vez mais honestidade:
isso aqui já é.
A Consciência não está escondida.
Ela é o que está lendo esse texto agora.
É o texto — e é quem escreveu e tudo que existe!