Cartografias Espirituais

Mapas sobre espiritualidade, mente e corpo a partir de uma visão não dual, latina e descolonial.

O ponto histórico comum entre o budismo, o yoga e o tantra

Existe um ponto pouco conhecido na história da Índia que aproxima o budismo, o yoga e, muitos séculos depois, o tantra.

Por volta de 500 a.C., a sociedade indiana estava passando por uma transformação profunda. Novas cidades surgiam, o comércio se expandia, moedas começavam a circular, a riqueza se concentrava e as estruturas sociais se tornavam mais complexas. Junto com tudo isso vinham também pobreza, doenças e as condições precárias inevitáveis de uma sociedade cada vez mais urbana.

Imagine uma cidade indiana desse período: mercados cheios, animais circulando, muita gente vivendo próxima, resíduos pelas ruas, água contaminada e doenças para as quais praticamente não havia tratamento. A vida estava mudando, e com ela surgiam novas perguntas sobre o que significava viver.

É nesse contexto que encontramos os śramaṇas.

Os śramaṇas eram pessoas que abandonavam a vida comum para buscar a libertação. Deixavam suas casas, suas propriedades, seu trabalho e, muitas vezes, suas famílias. Tornavam-se nômades e dedicavam a existência à meditação, à contemplação e a práticas ascéticas extremamente radicais.

Jejuns prolongados, vigílias, controle da respiração, posturas difíceis e outras formas de austeridade faziam parte desse universo. A descoberta interior era prioridade e a participação na vida social era literalmente abandonada.

A renúncia, portanto, não era simplesmente escolher uma vida mais simples. Era romper com a própria identidade social. Mallinson e Singleton, em Roots of Yoga, ajudam a compreender essa dimensão radical da tradição de renúncia: abandonar a vida doméstica significava, em certo sentido, deixar morrer a pessoa que se era dentro da sociedade — aquilo que eles vão chamar de suicídio ontológico.

É nesse ambiente que surge aquele que a história irá chamar de Buddha, Siddhartha Gautama.

O Buddha não inventou a figura do renunciante. Ele próprio entrou nesse movimento e passou anos experimentando práticas de meditação e austeridade antes de formular sua própria resposta para o sofrimento.

E essa é uma das curiosidades históricas que mais gosto: o budismo não nasceu sozinho.

O Buddha fazia parte de um mundo muito maior de pessoas que estavam abandonando a vida convencional para investigar a consciência, o sofrimento, a identidade e a possibilidade de libertação.

O yoga também se desenvolveu profundamente dentro desse universo de renúncia e experimentação. E, muitos séculos depois, quando surgirem as tradições tântricas, elas encontraram uma Índia que já possuía uma longa história de práticas ascéticas e yogues.

O tantra posterior, então, reaproveitou, transformou e radicalizou elementos de um universo ascético e yogue que já existia.

Práticas de concentração, mantras, visualizações, austeridades, transformações do corpo, rituais, estados alterados de consciência e ideias sobre energia e poder. E, especialmente, a possibilidade de utilizar o próprio corpo e a própria experiência como caminho de transformação.

Por isso, quando estudamos budismo, yoga e tantra separadamente, podemos ter a impressão de que são três mundos completamente diferentes.

Mas quando recuamos alguns séculos na história, encontramos algo muito mais complexo.

Eles estão conversando uns com os outros.

Entrelaçados uns nos outros, eles se influenciavam, respondiam uns aos outros e, ao longo do tempo, reinventavam suas próprias práticas.

E fazendo perguntas semelhantes de maneiras completamente diferentes: como sair do sofrimento? O que é realmente o eu? O que acontece quando a identificação habitual com esse eu se desfaz? É possível experimentar uma liberdade que não dependa das condições externas da vida?

Talvez esse seja o ponto histórico comum menos falado entre essas tradições.

Não uma doutrina, não um deus específico, não uma filosofia única, mas um movimento humano muito mais antigo: alguém olha para a vida comum e decide que precisa descobrir o que existe além dela.

E, para isso, está disposto a colocar em questão absolutamente tudo aquilo que acreditava ser.

Inclusive a própria pessoa que dizia: “eu sou.”

Quando até o próprio “eu” passa a ser colocado em questão, a busca pela liberdade ganha outra dimensão. Já não basta transformar o mundo ao redor. É preciso investigar aquele que está buscando, desejando e tentando se libertar.

E talvez seja justamente aí que começa uma das perguntas mais profundas da tradição espiritual indiana: quem sou eu, afinal?

sah vaz

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