Cartografias Espirituais

Mapas sobre espiritualidade, mente e corpo a partir de uma visão não dual, latina e descolonial.

O desejo humano mais profundo

O desejo humano mais profundo não é fazer sucesso.

Isso não significa que criar, realizar ou prosperar sejam problemas.

O problema começa quando acreditamos que finalmente seremos alguém quando alcançarmos algo.

Isso é capitalismo introjetado.

O desejo humano também não é o amor romântico.

Nós fomos vendidos por esses desejos.

Nosso desejo foi colonizado.

Aprendemos a acreditar que queremos reconhecimento, sucesso, casamento, status. Como se a felicidade estivesse sempre em algum lugar fora de nós.

Como se, quando finalmente chegássemos lá, pudéssemos descansar.

Mas acredito que o desejo humano mais profundo é outro.

É sentir-se inteiro.

É sentir-se em paz.

Por conhecer profundamente a estrutura humana, a cultura autoritária cria mecanismos para nos fazer acreditar que precisamos conquistar algo para finalmente sermos felizes.

Ela vende uma ideia de felicidade.

Uma felicidade que está sempre depois.

Depois da conquista.

Depois do reconhecimento.

Depois de sermos escolhidos.

Mas talvez a verdade seja outra.

Talvez paz e felicidade não sejam algo que precisamos conquistar.

Talvez sejam aquilo que permanece quando deixamos de viver separados de nós mesmos.

Você pode se perguntar:

“Se isso é verdade, por que eu não me sinto assim?”

Eu fiz essa pergunta durante quase toda a minha vida.

A resposta que encontrei foi o que hoje chamo de Exílio Interior.

Eu não morava em mim.

Não me reconhecia.

Não era, para mim mesmo, quem realmente eu era.

Eu vivia tentando ser aquilo que os outros esperavam de mim.

Vivia minhas máscaras, e não minha essência.

Passei anos em exílio interior, sem habitar a minha própria casa.

Talvez essa seja uma das dores mais profundas do ser humano:

não apenas sofrer,

mas não ter dentro de si um lugar onde possa descansar.

Ser hóspede da própria vida.

Mas morar em mim não significa morar na minha biografia do Instagram ou no meu LinkedIn.

Não significa morar nas identidades que construí para o mundo.

Significa habitar aquilo que existe antes de qualquer identidade social.

Aquilo que sou eu, mas que também é você.

Aquilo que é profundamente individual e, ao mesmo tempo, universal.

A força da vida.

A consciência — que eu gosto de chamar de Amor.

Outras pessoas preferem chamá-la de Deus.

Aquilo que é tudo o que existe também habita você.

Habitar a sua casa é, em essência, habitar o seu Ser.

E esse Ser é paz.

É completude.

É amor.

É alegria.

É o que as tradições da Índia chamam de Ānanda: a alegria profunda, o êxtase tranquilo de simplesmente existir.

Talvez esse seja o desejo mais profundo do nosso ser:

Reconhecer-se inteiro, e não fragmentado.

Não criar uma nova versão de si mesmo.

Mas reconhecer aquilo que sempre esteve presente.

Colocar o amor na centralidade da própria vida.

Deslocar o centro da nossa identidade da personalidade individual para essa consciência amorosa que atravessa todos os seres.

Como bell hooks escreve, o amor não é apenas um sentimento que recebemos. O amor é uma prática, uma escolha de presença, cuidado e compromisso.

Talvez a primeira relação amorosa que precisamos reconstruir seja justamente a relação conosco mesmos.

Talvez você ainda esteja buscando isso sem perceber.

Talvez ainda esteja acumulando prazeres e dores na esperança de encontrar aquilo que nunca esteve perdido.

Ou talvez essa verdade ainda esteja, silenciosamente, se revelando em você.

Enquanto isso, o Amor — ou a Consciência — continua sussurrando:

“Volte.”

Porque é nesse reencontro consigo mesmo que o desejo mais profundo finalmente encontra descanso.

É nele que nasce a sensação de completude.

É nele que o coração é nutrido.

É nele que descobrimos que a paz que tanto procurávamos nunca estava fora.

Ela apenas esperava que voltássemos para casa.


Nota sobre o reconhecimento do Ser

Essa compreensão possui uma relação profunda com a tradição do Śivaísmo da Caxemira, especialmente com o pensamento de Kṣemarāja e o conceito de Pratyabhijñā (reconhecimento).

Para essa tradição, a realização espiritual não é tornar-se algo que ainda não somos.

É reconhecer aquilo que sempre esteve presente antes das identificações, limitações e histórias que construímos sobre nós mesmos.

O caminho não é criar o Ser.

É reconhecer o Ser.

sah vaz

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