Cartografias Espirituais

Mapas sobre espiritualidade, mente e corpo a partir de uma visão não dual, latina e descolonial.

Deus é queer: notas sobre o terceiro sutra do Autorreconhecimento de Kshemaraja.

Tan nānānurūpa-grāhya-grāhaka-bhedāt.

Tradução literal de Christopher Hareesh Wallis:
“É diverso porque é dividido entre sujeitos e objetos mutuamente adaptados.”

Tradução do professor João Carlos B. Gonçalves:
“A multiplicidade dele (o universo) provém da divisão simétrica entre os que apreendem e são apreendidos.”

Quero começar este texto dizendo algo que, para mim, não é metáfora: Deus é queer.

Essa é uma leitura direta, íntima e pessoal que faço desse sutra, embora eu também traga aqui elementos de seus comentários tradicionais. Minha experiência direta encontra eco em Marcella Althaus-Reid, autora de Deus Queer. Marcella foi uma importante teóloga queer latino-americana que criticou a ideia de um Deus neutro, puro e distante da vida real. Para ela, toda teologia nasce de corpos concretos, desejos, exclusões, política e relações sociais. Seu trabalho questiona como a moral colonial e heteronormativa moldou nossa ideia de divindade.

Tudo que é vivo — e não colonial — é diverso.

A floresta é diversa.
Os corpos são diversos.
As espécies são diversas.
As ideias e visões de mundo são diversas.

O pensamento colonial eurocristão frequentemente construiu uma ideia de unidade divina separada da diversidade do mundo. Como se Deus fosse puro, estável, uno — e a multiplicidade fosse queda, erro ou fragmentação. Mas essa não é a visão da linhagem tântrica não dual com a qual tenho uma relação íntima. E talvez nem pudesse ser, sendo eu uma pessoa queer e decolonial.

Para um pensamento não colonial, unidade e diversidade não são um problema filosófico. Apenas o pensamento colonial exige que você seja uma coisa e não outra.

Na minha experiência direta, sinto-me divindade e puta.
Sinto-me queer, múltipla e unidade.
Plural e singular ao mesmo tempo.
Inteire e quebrade.
Sozinhe e comunidade.

Sinto-me divino e também a (des)humanidade — porque “ser humano”, historicamente, nunca foi algo plenamente concedido a corpos como o meu. E, honestamente, tampouco concordo com a ideia normativa de humanidade colocada em jogo pelo colonialismo moderno.

Esse sutra dá continuidade a uma visão radical: Shiva e Shakti manifestam-se em tudo que existe. Não há separação real entre interior e exterior, mente e corpo, espírito e matéria, humano e natureza. Tudo se dobra sobre si como uma fita de Möbius, onde dentro e fora tornam-se inseparáveis. A fita de Möbius é uma superfície contínua que possui apenas um lado: quando caminhamos por ela, percebemos que o “interno” e o “externo” se transformam um no outro sem ruptura. Ela é uma boa imagem para pensar uma realidade onde dualidades aparentemente opostas revelam-se expressões de uma mesma continuidade viva.

O ponto central do sutra, para mim, está em nānānurūpa — essa ideia de formas mutuamente adaptadas. Não existem seres isolados, fechados em si mesmos, mas redes contínuas de relação, percepção e transformação. Tudo existe em coemergência: aquilo que percebe e aquilo que é percebido nascem juntos, moldando-se mutuamente a cada encontro.

Como explicam os Recognition Sutras comentados por Christopher Hareesh Wallis, a consciência não é algo distante do mundo, mas aquilo que se manifesta como o próprio mundo em sua multiplicidade infinita de formas e experiências.

Não existe um mundo mecânico, morto e sem vida. Pelo contrário: tanto a filosofia tântrica quanto parte da ciência contemporânea apontam para um universo profundamente relacional, dinâmico e participativo. Tudo afeta tudo.

Aquilo que percebe e aquilo que é percebido transformam-se mutuamente.

Ao encontrar uma pedra, uma árvore, um corpo, o asfalto ou até uma urna de votação, a experiência muda você — e você também muda a experiência e o entorno. Isso é, em parte, um processo dialético: uma relação em que os elementos se transformam mutuamente através do encontro.

Cada experiência que você vive — trauma, felicidade, o lugar onde nasceu, a homofobia que sofreu, as adequações ao CIStema normativo — forma vikalpas: construções mentais, molduras, filtros através dos quais interpretamos o mundo.

Você vê o mundo através das experiências que o atravessaram.

Mas essas experiências também são continuamente transformadas pelo modo como você as percebe e responde a elas.

Diferente da filosofia Sāṃkhya clássica, que afirmava uma separação entre consciência (puruṣa) e matéria (prakṛti), essa visão tântrica não dual recusa uma divisão radical entre consciência e mundo. O poder da consciência e o poder da ação não podem ser separados.

O princípio da incerteza de Werner Heisenberg mostrou que, no nível quântico, não podemos determinar simultaneamente com precisão absoluta certos aspectos de uma partícula, como posição e velocidade. O próprio ato de medir interfere no fenômeno observado. Isso rompe profundamente com a ideia moderna de um observador neutro e separado do mundo.

O famoso experimento teórico do gato de Schrödinger radicaliza ainda mais essa questão. Na experiência imaginada por Erwin Schrödinger, um gato dentro de uma caixa estaria, teoricamente, vivo e morto ao mesmo tempo até que alguém abrisse a caixa e observasse o sistema. O experimento não queria dizer literalmente que gatos existem mortos-vivos, mas mostrar como, no nível quântico, observação e realidade não estão completamente separadas.

Não existe experiência sem observador. E, se existe um “mundo em si” totalmente separado da percepção, não temos acesso direto a ele.

Por isso, vemos sempre através de nossos vikalpas, nossas histórias, nossos condicionamentos, nossas normalizações — e também através dos processos coloniais que nos constituíram.

Mas há mobilidade.

Há possibilidade de deslocar paradigmas.

Como escreveu Anaïs Nin: “Cada amigo representa um mundo em nós, um mundo possivelmente não nascido até sua chegada.”

Talvez o Recognition Sutras esteja justamente apontando para isso: não uma consciência pura isolada do mundo, mas uma consciência viva que se reconhece através da diferença. Como escreve Christopher Hareesh Wallis em seus comentários aos Recognition Sutras, reconhecimento espiritual não é escapar do mundo, mas reconhecer o divino pulsando em todas as formas da experiência.

O universo não é uno apesar da diversidade.
Ele é uno através dela.

A visão colonial contemporânea de Deus é, em essência, uma monocultura: um campo único, controlado, cheio de venenos comportamentais, guerras, silenciamentos e limitações da expressão real do ser. Um Deus da normatização, da pureza e da domesticação da vida.

Mas o Deus de que falo aqui é como a floresta.

Vasta como a Amazônia interna e externa, onde múltiplas formas de vida coexistem, cooperam, entram em relação e transformam umas às outras continuamente. Um Deus vivo, livre, relacional e indomável.

E talvez seja isso que Marcella Althaus-Reid chamava de queer: aquilo que escapa às normas fixas, aos controles coloniais e às identidades rígidas impostas sobre os corpos, desejos e formas de existir. Queer, aqui, não é apenas identidade sexual ou de gênero — é a recusa de uma vida domesticada.

Por isso digo que Deus é queer.

Porque o divino, como a floresta, não cabe na monocultura.

sah vaz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo