Cartografias Espirituais

Mapas sobre espiritualidade, mente e corpo a partir de uma visão não dual, latina e descolonial.

Deus não morreu. Morreu o ser humano capaz de escutá-lo?

Um resumo comentado de Falando de Deus — Um diálogo com Simone Weil, de Byung-Chul Han

Byung-Chul Han começa Falando de Deus deslocando uma das frases mais famosas da filosofia moderna: talvez o problema do nosso tempo não seja simplesmente que Deus tenha morrido, mas que esteja desaparecendo o tipo de ser humano para quem Deus poderia se revelar. Para compreender o que isso significa, Han estabelece ao longo de todo o livro um diálogo com Simone Weil.

Simone Weil (1909–1943) foi uma filósofa, mística e ativista social francesa cuja vida é quase inseparável de seu pensamento. Trabalhou em fábricas para experimentar diretamente a condição operária, participou das lutas políticas de seu tempo e viveu experiências místicas profundas. Em sua obra, atenção, sofrimento, beleza, trabalho, graça e esvaziamento do eu formam caminhos para pensar nossa relação com Deus e com o outro. É essa Weil que Han traz para o século XXI, perguntando o que acontece com a experiência espiritual numa sociedade organizada pelo desempenho, consumo, informação e disponibilidade permanente.

O livro não é fácil. Apesar de curto, é bastante denso, e o primeiro capítulo pode ser especialmente difícil para quem ainda não conhece Weil ou Han. Se você nunca leu nenhum dos dois, eu faria inclusive uma pequena heresia contra a ordem do livro: começaria pelo capítulo “Beleza”, seguiria até o final e depois voltaria ao começo. A partir dali, as imagens se tornam mais concretas e muitos conceitos anteriores começam a ganhar corpo. E, se puder, leia este resumo antes de entrar no livro; talvez ele funcione como um pequeno mapa para atravessá-lo.

Atenção — uma alma que desaprendeu a olhar

O primeiro e mais importante movimento do livro acontece em torno da atenção. Para Simone Weil, atenção não é simplesmente concentração, mas uma disposição espiritual, uma abertura radical ao que existe. Han encontra aqui uma oposição fundamental para compreender nosso tempo: olhar ou devorar.

Vivemos cercados por coisas que se oferecem ao consumo, e isso não diz respeito somente a mercadorias. Consumimos imagens, informações, pessoas, experiências, viagens, espiritualidade e até silêncio. Diante do mundo, desenvolvemos aquilo que Han compara ao olhar do caçador: nossa atenção vagueia procurando alguma coisa que possa capturar, resolver, adquirir ou utilizar. Mesmo quando procuramos Deus, podemos procurá-lo dessa maneira, esperando uma resposta, uma experiência, um sinal ou algum resultado.

Para Weil, entretanto, as coisas mais preciosas não podem ser obtidas assim. Han recupera dela uma ideia belíssima: “Os bens mais preciosos não devem ser procurados, mas esperados.” A atenção religiosa não agarra seu objeto porque, no instante em que transforma Deus em objeto de conquista, talvez já tenha perdido aquilo que buscava.

É nesse contexto que surge a imagem do jejum. Somente uma alma capaz de jejuar é capaz de verdadeiramente olhar, porque jejuar aqui significa suportar que alguma coisa exista diante de mim sem imediatamente incorporá-la ou transformá-la em satisfação. Nossa sociedade faz justamente o contrário: quer devorar tudo. Han usa a imagem de uma espécie de “obesidade mortal” da alma: acumulamos estímulos, informações, imagens e experiências enquanto a parte contemplativa, aquela capaz de permanecer diante das coisas sem consumi-las, vai se atrofiando.

A digitalização radicaliza esse processo porque nos acostuma à disponibilidade. Tudo parece precisar estar imediatamente acessível, pesquisável, calculável e consumível. Aos poucos, perdemos justamente os estados de espírito necessários para nos relacionarmos com aquilo que não está disponível sob demanda: espera, paciência, demora, silêncio.

Talvez seja por isso que a oração não tenha a estrutura de uma busca no Google. Quando juntamos as mãos, não estamos agarrando alguma coisa; estamos, simbolicamente, deixando de agarrar. Para Weil, a atenção chega à sua forma mais elevada quando o eu deixa de ocupar o centro e se torna uma espécie de oração natural da alma.

É também aqui que Han dirige uma crítica à indústria contemporânea do mindfulness. Uma prática que poderia interromper a lógica do desempenho é frequentemente capturada por ela e transformada em técnica para produzir melhor, suportar o estresse e retornar mais eficiente ao trabalho. A espiritualidade deixa de abrir espaço para o outro e para a transcendência e volta novamente ao aperfeiçoamento do próprio eu. O capitalismo demonstra, assim, sua extraordinária capacidade de incorporar até aquilo que poderia questioná-lo.

Descriação — talvez você não precise se tornar alguém

A palavra “descriação” é central em Simone Weil e pode soar estranha num primeiro encontro. Ela não significa destruir a vida nem desprezar a individualidade, mas retirar o eu da posição de centro absoluto da realidade.

Nossa época nos ordena incessantemente que sejamos alguém. Precisamos construir uma identidade, realizar nosso potencial, expressar nossa autenticidade, produzir uma versão cada vez mais extraordinária de nós mesmos. Até a criatividade passa a funcionar como exigência de desempenho.

Han coloca diante desse imperativo a radicalidade de Weil: talvez o caminho espiritual não seja adicionar cada vez mais coisas ao eu, mas permitir que ele recue.

A descriação é esse movimento no qual deixamos de exigir que o mundo confirme continuamente nossas imagens, desejos e narrativas pessoais. Há aqui uma proximidade com antigas tradições místicas: alguma coisa em nós precisa morrer para que outra forma de vida possa aparecer. Como o grão que desaparece enquanto forma para liberar aquilo que carregava como possibilidade, o eu precisa deixar de ocupar todo o espaço.

Descriar-se é abrir espaço.

Vazio — quando não preencher é uma prática espiritual

E, quando o eu recua, aparece algo que nossa sociedade aprendeu a temer profundamente: o vazio.

Simone Weil escreve que “todos os pecados são tentativas de preencher vazios”. Sentimos uma falta e imediatamente procuramos alguma coisa para ocupá-la: comida, compras, trabalho, informação, relações, entretenimento, rolagem infinita, experiências espirituais. Quase nunca permanecemos tempo suficiente diante da ausência para descobrir o que ela contém.

Mas, para Weil, é justamente o vazio que torna a alma receptiva à graça divina. A graça não encontra espaço numa alma completamente preenchida por si mesma. É necessário que alguma coisa permaneça aberta, sem resposta imediata, sem compensação e sem consumo.

O vazio deixa então de ser simples falta e transforma-se em receptividade. Onde não corro imediatamente para preencher, alguma coisa pode finalmente chegar até mim.

Silêncio — o lugar onde as coisas tímidas ainda podem falar

A crise da religião, para Han, é também uma crise do silêncio.

O mundo contemporâneo não é simplesmente barulhento no sentido acústico. Ele é atravessado permanentemente por informações, notificações, opiniões, mensagens e imagens que disputam nossa percepção. A informação é intrusiva, sabe chamar nossa atenção, mas nem tudo o que importa grita.

Existem coisas tímidas, escreve Han, coisas que se recolhem no silêncio e só aparecem para uma percepção que aprendeu a esperar. A informação invade; o mistério se retira. Se nossa sensibilidade é treinada exclusivamente para responder ao que pisca, vibra e exige reação, perdemos a capacidade de perceber aquilo que apenas se oferece.

Por isso o silêncio não é ausência estéril, mas condição para que alguma coisa nova possa nascer. Han chega a tratá-lo como uma espécie de parteira do novo: pensamento, poesia, criação e experiência religiosa precisam desse espaço anterior à produção.

A oração mais profunda aproxima-se então da escuta. Não se trata de falar cada vez mais para Deus, mas de aprender a ouvir aquilo que talvez só possa aparecer quando o próprio eu deixa de fazer tanto barulho. Deus brilha também por sua ausência: a ausência não precisa significar inexistência, mas uma forma de presença que se recusa a tornar-se objeto disponível.

Beleza — quando Deus aparece na matéria

Se o começo do livro parece abstrato, é aqui que, para mim, ele começa a respirar.

Para Simone Weil, a beleza é uma presença de Deus na matéria. E justamente porque o belo não serve necessariamente para alguma coisa, ele interrompe a lógica utilitária que organiza nossa relação com o mundo.

Diante de uma montanha, de uma música, de uma pintura ou da luz atravessando uma árvore, podemos simplesmente permanecer. O belo nos convida a uma relação que não precisa terminar em posse, e por isso somente uma atenção contemplativa, capaz de se demorar, consegue realmente acessá-lo.

É nesse ponto que aparece Cézanne. Para pintar, o artista precisa silenciar seus preconceitos, suas ideias prontas e até sua vontade de impor alguma coisa à paisagem. Cézanne fala em tornar-se um “eco perfeito”. Antes de expressar a si mesmo, o artista precisa aprender a obedecer ao que vê.

Essa obediência não significa submissão cega, mas uma forma radical de escuta: permitir que o mundo apareça antes que nossa imaginação o cubra com aquilo que já sabemos.

A ciência e a arte acabam se aproximando nesse ponto. Ambas podem nascer do espanto diante de uma ordem que antecede nossos desejos. Em uma cultura do like, entretanto, até o belo corre o risco de se transformar em algo imediatamente agradável e consumível, perdendo sua estranheza, sua demora e sua capacidade de nos retirar de nós mesmos.

Dor — o fio de Ariadne que nos devolve ao real

Este talvez seja o capítulo mais desconfortável do livro e precisa ser lido com cuidado, porque o argumento não é simplesmente que “sofrer é bom”.

Han recupera de Ernst Jünger a ideia de que nossa relação com a dor revela algo profundo sobre nossa relação com a realidade. A dor atravessa as fantasias com que tentamos proteger o eu e inscreve o mundo diretamente no corpo.

É nesse sentido que podemos compreender a expressão “fio de Ariadne da dor”. Na mitologia grega, Ariadne entrega a Teseu um fio para que ele encontre o caminho de volta depois de entrar no labirinto do Minotauro. A dor funciona metaforicamente assim: em meio ao labirinto de imagens, desejos, distrações e anestesias, ela pode funcionar como um fio que nos reconduz ao real.

Isso não significa buscar sofrimento nem romantizar doenças, violências ou injustiças. Significa reconhecer que uma cultura incapaz de tolerar qualquer negatividade pode acabar perdendo também a profundidade da experiência.

Han chama de algofobia essa aversão contemporânea à dor. Queremos relações sem desconforto, arte sem perturbação, espiritualidade sem crise e uma vida permanentemente agradável. Tudo precisa adquirir uma superfície lisa o bastante para ser consumido.

O problema é que a capacidade de sofrer diante do sofrimento do outro também está na raiz da compaixão. A dor pode romper a indiferença e corporificar uma ética: o sofrimento alheio deixa de ser simplesmente uma informação e passa a nos tocar.

Beleza e dor se encontram justamente aí, porque ambas podem interromper nossa indiferença e nos devolver intensidade. Uma música pode doer de tão bela; uma saudade pode carregar simultaneamente alegria e sofrimento. A sociedade paliativa sonha com uma existência sem negatividade, mas Han suspeita que, ao anestesiarmos toda dor, podemos acabar anestesiando também nossa capacidade de sermos profundamente tocados.

Inatividade — talvez o contrário da escravidão não seja trabalhar para si mesmo

O último capítulo reúne praticamente todos os fios anteriores.

Simone Weil conheceu o trabalho industrial no próprio corpo. Ao trabalhar em fábricas, percebeu como a velocidade da máquina obrigava o trabalhador a submeter o ritmo do pensamento e da sensibilidade ao ritmo da produção. Era preciso “amordaçar a alma” para acompanhar a máquina.

Han argumenta que nosso regime mudou, mas não necessariamente nos libertou. Foucault descreveu a sociedade disciplinar, na qual instituições produziam “corpos dóceis” por meio de regras, vigilância e obediência. Para Han, a sociedade neoliberal realiza uma transformação decisiva: já não precisamos apenas de um senhor externo nos ordenando que trabalhemos. Tornamo-nos empresários de nós mesmos.

O senhor e o escravo passam a habitar o mesmo corpo.

Exploramos a nós mesmos acreditando que estamos nos realizando, medimos nossos passos, nossa produtividade, nossa audiência, nosso sono, nosso desempenho e nossa atenção. O poder torna-se mais eficiente justamente porque deixa de parecer proibição e passa a aparecer como liberdade, estímulo, like, recompensa e gamificação.

Han leva essa crítica até a digitalização e a inteligência artificial. Inspirando-se numa formulação de Weil sobre “dinheiro, mecanização e álgebra”, ele propõe seus próprios monstros contemporâneos: capital, digitalização e inteligência artificial, forças que podem reduzir o mundo e o ser humano ao mensurável e ao eficiente.

Contra isso, aparece a inatividade, que aqui não significa preguiça ou apatia, mas a possibilidade de uma atividade que não esteja inteiramente submetida a um “para quê”. Fazer alguma coisa sem imediatamente convertê-la em produtividade, resultado, crescimento ou desempenho.

Por isso a frase final do livro é tão importante para compreender tudo que veio antes: “Toda atividade que não preserve em seu centro o silêncio contemplativo se assemelha à escravidão.”

O silêncio não precisa abolir a ação. Ele pode transformá-la.

Talvez seja isso que Han esteja tentando recuperar ao longo de Falando de Deus: uma forma de existir na qual ainda seja possível olhar sem consumir, esperar sem exigir, silenciar sem sentir que estamos desperdiçando tempo, criar sem transformar a nós mesmos em produtos, trabalhar sem entregar toda a alma à eficiência e contemplar uma coisa bela sem precisar fotografá-la, publicá-la ou possuí-la.

Nesse sentido, a pergunta do livro talvez seja menos “Deus existe?” do que “ainda existe em nós o espaço onde Deus poderia aparecer?”

Porque o Deus sobre o qual Han e Weil falam não parece caber na lógica da disponibilidade. Não aparece porque digitamos a pergunta certa, não chega mais rápido porque aumentamos nossa eficiência e não pode ser capturado pelo olhar do caçador. Ele pertence à espera, ao vazio, ao silêncio, à beleza, à atenção e àquela estranha capacidade de não fazer nada com aquilo que está diante de nós, exceto permitir que seja.

Talvez seja esse o ser humano que estamos perdendo.

Não necessariamente o ser humano religioso, no sentido institucional da palavra, mas aquele que ainda consegue permanecer diante de uma árvore sem transformá-la em cenário, diante de outra pessoa sem transformá-la em função, diante do silêncio sem correr para preenchê-lo e diante do mistério sem exigir imediatamente uma explicação.

Falando de Deus é difícil justamente porque tenta falar de algo que nossa época está desaprendendo a fazer: demorar-se.

E talvez seja também por isso que vale atravessá-lo devagar.

sah vaz

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