Cartografias Espirituais

Mapas sobre espiritualidade, mente e corpo a partir de uma visão não dual, latina e descolonial.

Mantras não são canções de pano de fundo

são encantarias de liberdade.

No livro Vence-demanda: educação e descolonização, Luiz Rufino nos conta um causo: foi a um caboclo que entregou a ele uma folha e disse: “Meu filho, você não vai cantar para a folha encantar?”

Essa fala do caboclo nos diz do poder e da encantaria na nossa palavra e nos nossos discursos.

Existe uma tendência contemporânea de transformar tudo que vem do yoga e das tradições espirituais indianas em alguma coisa leve, bonita, suave e confortável.

Um tipo de espiritualidade sem conflito.

Sem história. Sem política. Sem corpo. Sem morte. Sem transformação.

Infelizmente, no mundo moderno, o yoga foi reduzido a pose. O tantra foi, em muitos lugares, corrompido e transformado em uma espécie de técnica para melhorar relações amorosas e sexuais — e nem vou entrar aqui no buraco ainda maior que é o neotantra.

E os mantras foram reduzidos a música.

Mantra não é música, é encantaria, é magia.

Os mantras têm seu corpo sônico e representam divindade. Não há uma diferenciação entre Gaṇeśa e o mūlamantra de Gaṇeśa. Cantar o mantra de Gaṇeśa é, de certa forma, ser Gaṇeśa.

Dentro das giras brasileiras, ao cantar pontos, é comum avisar aos mal avisados que cantar ponto fora de terreiro é trazer desordem espiritual. Dentro das tradições indianas ocorre algo semelhante.

Cantar mantras sem a devoção, colocar mantra de pano de fundo de escritório, achar que mantra é coisa “leve e fofa” é colonizar e tirar todo o encantamento dessa tecnologia ancestral superavançada.

E talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de colonialidade:

pegar uma prática ancestral, retirar dela seu contexto, sua cosmologia, sua responsabilidade e sua relação comunitária e devolver apenas aquilo que conseguimos consumir.

Fica a estética.

Fica a sonoridade.

Fica a sensação agradável.

Mas o encantamento vai embora.

Descolonizar também é reaprender a se reencantar.

Há cantos capazes de neutralizar veneno de cobra, cantos secretos passados apenas na relação discípulo-criador, capazes de quebrar obstáculos na nossa jornada, destruir padrões e pensamentos que nos adoecem.

É necessário reconhecer nossa habilidade de descolonizar os ritos e encantarias dos nossos ancestrais. E entender os processos espirituais como rituais de luta e libertação.

Libertação da dominação de modos de existir, conceber e praticar o mundo.

Os mantras na tradição são como anjos, como entidades espirituais que nos fortalecem no vencimento das demandas dessa guerra colonial de violência e autoabandono e auto-ódio, interna e externamente.

Da próxima vez que entoar Oṃ, ou Oṃ Gaṃ Gaṇapataye Namaḥ, ou Oṃ Namaḥ Śivāya, saiba: o som não é algo banal.

É encantaria.

É força de batalha, liberdade e cura.

sah vaz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo