Cartografias Espirituais

Mapas sobre espiritualidade, mente e corpo a partir de uma visão não dual, latina e descolonial.

A postura de yoga que me trouxe uma ataque de pânico — e o porquê

Eu pratico yoga já há cerca de 3 anos, devo dizer, com uma excelente professora.

E tem uma postura que, para mim, é superdesafiadora.

A primeira vez que entrei nela, tive um vômito súbito.
A segunda, chorei sem motivo aparente.
A terceira desencadeou uma memória.
E a quarta me trouxe pânico.

E, antes de falar sobre a memória ou sobre a postura, queria te contar que yoga não é uma simples prática física.

O yoga mexe em nossas couraças musculares, ou seja, nos grupos musculares em que memórias, histórias e traumas ficam presos, desbloqueando, liberando, abrindo espaço.

O verdadeiro objetivo do yoga não é uma pose bonita ou um alongamento.

É a liberação do sofrimento — em sânscrito, mokṣa.

Para que isso aconteça, muitas vezes partes de nós mesmos, quebradas, precisam passar por processos intensos.

O corpo e a mente são um contínuo, e eu trabalho como massoterapeuta há no mínimo 20 anos. Posso te afirmar que liberar tensão muscular pode desbloquear memórias, traumas e muitas outras coisas.

A postura que me deu pânico se chama Supta Vīrāsana, e ela se propõe a abrir nossos quadris de uma forma passiva e relaxada.

O que seria ótimo se eu não fosse uma vítima de abuso sexual e estupro.

Pode parecer pesado falar abertamente, mas admito que meus tempos de me silenciar acabaram.

Precisamos falar e nomear as violências que passamos e deixar claro que isso deixa uma marca profunda nos nossos corpos.

Estou praticando já há 3 anos e, hoje, novamente, tive um pânico no meio da aula.

Saí, chorei, olhei em volta e comecei a me regular.

Uma das técnicas que usei foi a técnica de orientação pelos sentidos, também conhecida como grounding: olhei ao meu redor e nomeei três objetos que conseguia ver. Depois, senti meus pés no chão, percebi minha respiração, observei o ambiente ao meu redor e deixei meu corpo entender, pouco a pouco, que eu estava segura naquele momento.

Depois de algum tempo, voltei ao estúdio. Minha professora tinha dito que iria trocar a postura e veio falar comigo com a calma e o carinho que ela sempre oferece aos seus alunes.

Mas te digo: eu poderia não saber me autorregular.

Eu poderia não ter capacidade para digerir as memórias que foram trazidas.

Eu poderia ter caído em um grande buraco.

Hoje, mais que tudo, agradeço por saber me autorregular, por saber quando parar e levantar e por saber que, se eu não quisesse fazer aquela postura, mesmo em uma sala onde as pessoas esperam que tudo seja igual, eu poderia ter dito:

“Não. Hoje eu não quero me desafiar.”

E está tudo bem.

Mas hoje quero celebrar meus passos e meus processos.

Em uma sociedade que valoriza apenas dinheiro, fama e sucesso, quero celebrar meu corpo e sua habilidade de guardar minhas emoções e me trazer de volta quando já tenho um sistema nervoso desenvolvido para digeri-las.

Quero celebrar que sei dizer não, sei pedir o que quero e, mais importante, sei me autorregular.

Tenho hoje um sistema nervoso que não está mais preso ao sistema de trauma, luta e fuga em que vivi por mais de 30 anos, em profundo sofrimento físico e mental.

E quero te dizer:

Yoga não é atividade física. Também não é terapia, mas é extremamente terapêutico.

A yoga é irmã mais velha da linhagem que estudo.

Yoga Sūtra de Patañjali é geralmente datado por volta do século IV d.C., embora sua datação exata seja objeto de debate acadêmico.

Os primeiros textos tântricos aparecem alguns séculos depois, e o Tantra Śaiva não dual que estudo floresce especialmente a partir do século IX.

Um não simplesmente surgiu do outro. São tradições que se desenvolveram em diálogo e influência ao longo de muitos séculos.

Meu professor, Christopher D. Wallis, PhD, também conhecido como Hareesh, explica que muitas práticas que hoje associamos à yoga moderna foram desenvolvidas ou transformadas nas tradições tântricas e posteriormente incorporadas ao Haṭhayoga.

Isso muda bastante a forma como eu olho para a yoga que pratico hoje.

E não: o Tantra aqui não tem nada a ver com o “tantra” dito na internet.

E talvez essa história toda — do corpo, da yoga, do Tantra e das marcas que carregamos — seja, no fundo, uma mesma história: a história de como vamos aprendendo a habitar a nós mesmos.

Talvez seja justamente isso que eu queira celebrar hoje.

O corpo.

Esse corpo que não é apenas um corpo.

Esse corpo que carrega a nossa história, que guarda aquilo que às vezes a nossa mente tenta esquecer, que se contrai, treme, chora, vomita, sente medo e, ainda assim, aprende.

Aprende a voltar.

Aprende a reconhecer o perigo e também a reconhecer quando o perigo passou.

Aprende a dizer não.

Aprende a pedir.

Aprende a parar.

Aprende, aos poucos, que não precisa mais viver o tempo inteiro em luta e fuga.

Talvez o que chamamos de cura seja, muitas vezes, aprender a habitar novamente o próprio corpo.

E talvez celebrar seja isso também.

Não apenas celebrar aquilo que conquistamos, o dinheiro que ganhamos, os lugares onde chegamos ou aquilo que conseguimos produzir.

Mas celebrar os pequenos lugares para os quais conseguimos voltar.

Celebrar o limite que conseguimos colocar.

A memória que conseguimos atravessar.

O choro que finalmente pôde existir.

O “não” que um dia não conseguimos dizer e que hoje conseguimos.

Celebrar o corpo que sobreviveu à nossa história e que, apesar de tudo, continua nos conduzindo de volta para nós.

Hoje eu celebro isso.

E você?

O que existe no seu corpo, na sua história, na sua vida, que merece ser celebrado hoje?

sah vaz

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